GUERRA DOS MENINOS
Eu vi um menino chegando com uma metralhadora na mão, no coração uma carga pesada de medo, no enredo uma trama triste de amores proibidos, no vidro o reflexo de uma tirania imprecisa, na camisa as marcas de uma luta sem causa, na pausa um minuto de sono e pesadelo, nos cabelos o mistério da força proibida, na partida o aceno da volta iminente, na frente os riscos da proximidade ao caos, nos maus os sinais da piedade, na bondade o calor do perdão, no porão os lucros e perdas da conta fechada, na fachada o último anúncio da liquidação, no chão o primeiro prenúncio da queda final, no canal o filme em cores de uma vida incolor, no vapor a última gota de água potável, no notável a última esperança de ficha limpa, na grimpa uma luz ao final do túnel, no tonel a água transformada em vinho, no ninho a ave que não se fez de um ovo, no polvo suas afortunadas ventosas, nas rosas seus espinhos protetores, nas cores o retrato da aquarela, na fivela o ícone da pecuária prevalente, no pente a lêndea e o piolho, no molho o milho moído, nos idos o momento de glória, na história uma página virada, na fada um conto de mágica, no magenta um grito de guerra, na serra o mundo a perder de vista, na pista estreita as curvas e retas, na meta frustrada os erros revistos, nas revistas a manchete do cessar fogo, no jogo o resultado favorável, no inefável os segredos do enigmático, no prático a solução mais indicada, na caçada o bicho mais exótico, no pórtico a saída para a fama, na lama o chafurdar da fome, no nome o aval para a felicidade, na cidade a obediência cega ao sinal luminoso, no teimoso a conta de chegar, no cantar o ritmo da dança, na trança os vestígios de uma infância vencida. Eu tive medo porque a arma não era de brinquedo.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
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