sexta-feira, 26 de março de 2010
Manual de cultura inútil
O mosquito da dengue não tem preconceito e se acha no direito de atacar até senador. O aedes egipt tem espírito republicano. Não pica por engano, não age por baixo dos panos, não procria em água suja e resiste ao fumacê. Eu prefiro ser picado pela mosca azul, mordido pelo pit bull a ser vítima de uma dengue por menos hemorrágica que seja, por mais fraca que possa vir, por mais falsa que seja ao sorrir, por mais devassa que esteja ao ficar, por menor que veja ao redor, por pior que aja ao melhor, ainda prefiro a paz das noites mal dormidas, a lamber as feridas não cicatrizadas, a errar as entradas permitidas, a caminhar as estradas sem atalhos, a carregar as espigas sem atilhos, a juntar todos os entulhos, livrar-me de todos os bagulhos, limpar os velhos bugalhos, mijar no assoalho, fazer cara de paspalho, espalhar os rumores mais atrozes, atroar os ruídos mais agudos, entoar os cantos mais antigos, enjoar os gostos mais contrafeitos, esboçar o gestos menos convencionais, convencer o mais cético dos mortais, acessar todos os portais, incensar os mais imbecis, inocentar os mais culpados, inculpar os inocentes, inculcar as preferências, proferir o resultado, resumir o arrazoado, rasar o razoável, presumir o ponderável, prevenir o imprevisto, improvisar o discurso, dispensar o recurso, dispersar a massa, massacrar o meio, casar em maio, rechear a meia, mediar o conflito, configurar a página, pajear a cria, criar um clima, climatizar o tempo, contemporizar a contento, contestar o descontente, descontar o deságio, desajeitar a rotina, desajustar o pacto, depenar o pato, desempenar a ponta, desempenhar o cargo, despachar a carga, jogar uma praga e pagar pra ver.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Que estado é esse, excelência?
Publicado na edição de hoje (19-02-2010) Correio do Estado:
Que estado é esse, excelência?
Sergio Cruz
O advogado Fábio Trad, em trabalho publicado no Correio do Estado (16-02-2010) volta a uma antiga discussão, envolvendo o nome do Estado. No arrazoado o ex-presidente da OAB, inicia uma cruzada que, pela inutilidade de sua aplicação, já virou folclore: a exigência de que sejam publicamente execrados todos aqueles que deixarem de acrescentar o DO SUL em nosso Mato Grosso. O exaltado jovem advogado começa por tentar diferençar Mato Grosso do Sul do Mato Grosso e a confessar-se humilhado quando alguém é flagrado economizando o nosso DO SUL, reconhecendo, por outro lado, a grande dificuldade que as pessoas encontram em pronunciar o Mato Grosso do Sul do começo ao fim.
Depois de uma sequência atabalhoada e veemente de considerandos, Fábio Trad, encerra seu longo artigo com o um brado de guerra: “...aquele que se referir ao nosso estado com o nome de Mato Grosso deverá ser imediatamente corrigido, sem receio de constrangimento, se possível, apupado respeitosamente com inspiração cívica, para, ao final, todos, de forma uníssona, a voz firme e cheia de orgulho, proclamando:MATO GROSSO DO SUL!”
O artigo do advogado Fábio Trad está pelo menos 30 anos atrasado. Ou seja, o trabalho tem praticamente a idade do autor. Como um dos fundadores de Mato Grosso do Sul, na condição de deputado estadual constituinte, confesso que nunca fui fascinado pelo nome que tivemos que aceitar em 1977. A proposta de Estado de Campo Grande me pareceu à época muito mais adequada, sobretudo, do ponto de vista topográfico. Outra coisa, o Mato Grosso do Sul, além de manter o vínculo com o estado remanescente, nos remetia à submissão regional de Sul de Mato Grosso da qual tentávamos nos livrar com a emancipação. Entendia que o processo divisionista deveria ser radical, inclusive com uma denominação própria.
Por fim, o Mato Grosso do Sul, além de difícil assimilação, em nenhum momento havia sido reivindicado pelo movimento divisionista. Historicamente não tinha nenhuma referência a não ser a de parte meridional de Mato Grosso. Vespasiano defendeu o Estado de Maracaju, Getúlio, quando em 1943 promoveu a primeira separação oficial, denominou de território federal de Ponta Porã. O Mato Grosso do Sul viria surgir apenas às vésperas da divisão, para desempatar uma disputa entre os que aceitavam ou não o Estado de Campo Grande.
Não houve uma discussão sobre o nome do novo Estado. Ele nos foi imposto pela pressa de dividir e por uma minoria saudosista que havia nascido matogrossense e queria morrer matogrossense. Isto não impediu que se assumisse a nova denominação. Durante os primeiros vinte anos integramos o coral dos intransigentes. Achávamos que corrigindo a quem nos confundia com o Mato Grosso, iríamos inculcar o Mato Grosso do Sul. Corrigimos, com impertinência, nos congressos, nas conferências, nos shows, nas reuniões políticas, nas competições esportivas, nas lojas, no centro nas periferias, onde houvesse alguém trocando o Mato Grosso do Sul pelo Mato Grosso. Tudo em vão. Quanto mais corrigíamos, mais as pessoas continuavam, sem maldade, esquecendo o nosso DO SUL, como ocorre até hoje, acendendo ainda que tarde a indignada chama patriótica do jovem dirigente classista.
Duas décadas depois, descobri que estava me expondo ao ridículo na tentativa de explicar que a gente era Mato Grosso ao mesmo tempo que não era Mato Grosso. Refletindo passei a buscar as razões pelas quais as pessoas não conseguiam assimilar a denominação adotada. Há uma tendência natural à redução de palavras. Nome de gente, cidade, estado ou país com mais de duas palavras passa por este processo de simplificação. No legislativo brasileiro, por exemplo, há uma exigência regimental do nome parlamentar que não pode ter mais que duas palavras. O gaúcho e o potiguar não se apoquentam quando seu estado é identificado apenas por Rio Grande. Ao contrário, orgulham-se disso. O próprio Mato Grosso do Sul, lugar comum, resume-se a um econômico MS. Simplificando, Mato Grosso do Sul é um nome indiscutivelmente bonito, sonoramente agradável, patrioticamente defensável e extensamente inassimilável.
O autor do artigo exagera quando considera “agressão, ofensa, humilhação, deboche,” o ato de, mesmo voluntariamente, alguém dirigir-se ao nosso Mato Grosso, sem o respectivo DO SUL. Não releva o fato de Mato Grosso ser a base de nossa denominação. DO SUL são apenas termos de diferenciação, logo, abominar o radical para enaltecer a flexão é, no mínimo, omitir as próprias origens da causa.
Longe de mim antepor-me à cruzada cívica de um jovem idealista que trinta e três anos depois decide desafiar a lógica e a insistir na imposição do nome de seu estado. Nada mais louvável. Apenas a preocupação de que, partindo de um personagem importante e de respeitável credibilidade, os apupos respeitosos “com inspiração cívica,” sugeridos por ele, descambem para o fundamentalismo de falanges discricionárias, inoculando ódio no lugar do debate sadio e estabelecendo dogmas no lugar da tese racional.
Da mesma forma que desconhece a impraticabilidade mansa e pacífica da denominação adotada por nosso Estado, o emérito jurista parece ignorar também a discussão sobre o Estado do Pantanal, proposta defendida por respeitáveis setores de nossa sociedade, como alternativa para um nome que não confunda, e que tenha estreita relação com a nossa história, geografia e economia.
Só há duas saídas para o impasse da denominação. Ou aceitamos um novo nome, próprio e apropriado ou assumimos o Mato Grosso com naturalidade. É ilusório, infantil e presunçoso acreditar que as pessoas vão aceitar o DO SUL de Mato Grosso na marra. Por fim, “Manoel de Barros, o maior poeta vivo do mundo,” eleito pelo articulista como a imagem padrão do autêntico homem de Mato Grosso do Sul, é cuiabano e, como eu, defensor do Estado do Pantanal.
SERGIO CRUZ (sergiocruz@viamorena.com)
Que estado é esse, excelência?
Sergio Cruz
O advogado Fábio Trad, em trabalho publicado no Correio do Estado (16-02-2010) volta a uma antiga discussão, envolvendo o nome do Estado. No arrazoado o ex-presidente da OAB, inicia uma cruzada que, pela inutilidade de sua aplicação, já virou folclore: a exigência de que sejam publicamente execrados todos aqueles que deixarem de acrescentar o DO SUL em nosso Mato Grosso. O exaltado jovem advogado começa por tentar diferençar Mato Grosso do Sul do Mato Grosso e a confessar-se humilhado quando alguém é flagrado economizando o nosso DO SUL, reconhecendo, por outro lado, a grande dificuldade que as pessoas encontram em pronunciar o Mato Grosso do Sul do começo ao fim.
Depois de uma sequência atabalhoada e veemente de considerandos, Fábio Trad, encerra seu longo artigo com o um brado de guerra: “...aquele que se referir ao nosso estado com o nome de Mato Grosso deverá ser imediatamente corrigido, sem receio de constrangimento, se possível, apupado respeitosamente com inspiração cívica, para, ao final, todos, de forma uníssona, a voz firme e cheia de orgulho, proclamando:MATO GROSSO DO SUL!”
O artigo do advogado Fábio Trad está pelo menos 30 anos atrasado. Ou seja, o trabalho tem praticamente a idade do autor. Como um dos fundadores de Mato Grosso do Sul, na condição de deputado estadual constituinte, confesso que nunca fui fascinado pelo nome que tivemos que aceitar em 1977. A proposta de Estado de Campo Grande me pareceu à época muito mais adequada, sobretudo, do ponto de vista topográfico. Outra coisa, o Mato Grosso do Sul, além de manter o vínculo com o estado remanescente, nos remetia à submissão regional de Sul de Mato Grosso da qual tentávamos nos livrar com a emancipação. Entendia que o processo divisionista deveria ser radical, inclusive com uma denominação própria.
Por fim, o Mato Grosso do Sul, além de difícil assimilação, em nenhum momento havia sido reivindicado pelo movimento divisionista. Historicamente não tinha nenhuma referência a não ser a de parte meridional de Mato Grosso. Vespasiano defendeu o Estado de Maracaju, Getúlio, quando em 1943 promoveu a primeira separação oficial, denominou de território federal de Ponta Porã. O Mato Grosso do Sul viria surgir apenas às vésperas da divisão, para desempatar uma disputa entre os que aceitavam ou não o Estado de Campo Grande.
Não houve uma discussão sobre o nome do novo Estado. Ele nos foi imposto pela pressa de dividir e por uma minoria saudosista que havia nascido matogrossense e queria morrer matogrossense. Isto não impediu que se assumisse a nova denominação. Durante os primeiros vinte anos integramos o coral dos intransigentes. Achávamos que corrigindo a quem nos confundia com o Mato Grosso, iríamos inculcar o Mato Grosso do Sul. Corrigimos, com impertinência, nos congressos, nas conferências, nos shows, nas reuniões políticas, nas competições esportivas, nas lojas, no centro nas periferias, onde houvesse alguém trocando o Mato Grosso do Sul pelo Mato Grosso. Tudo em vão. Quanto mais corrigíamos, mais as pessoas continuavam, sem maldade, esquecendo o nosso DO SUL, como ocorre até hoje, acendendo ainda que tarde a indignada chama patriótica do jovem dirigente classista.
Duas décadas depois, descobri que estava me expondo ao ridículo na tentativa de explicar que a gente era Mato Grosso ao mesmo tempo que não era Mato Grosso. Refletindo passei a buscar as razões pelas quais as pessoas não conseguiam assimilar a denominação adotada. Há uma tendência natural à redução de palavras. Nome de gente, cidade, estado ou país com mais de duas palavras passa por este processo de simplificação. No legislativo brasileiro, por exemplo, há uma exigência regimental do nome parlamentar que não pode ter mais que duas palavras. O gaúcho e o potiguar não se apoquentam quando seu estado é identificado apenas por Rio Grande. Ao contrário, orgulham-se disso. O próprio Mato Grosso do Sul, lugar comum, resume-se a um econômico MS. Simplificando, Mato Grosso do Sul é um nome indiscutivelmente bonito, sonoramente agradável, patrioticamente defensável e extensamente inassimilável.
O autor do artigo exagera quando considera “agressão, ofensa, humilhação, deboche,” o ato de, mesmo voluntariamente, alguém dirigir-se ao nosso Mato Grosso, sem o respectivo DO SUL. Não releva o fato de Mato Grosso ser a base de nossa denominação. DO SUL são apenas termos de diferenciação, logo, abominar o radical para enaltecer a flexão é, no mínimo, omitir as próprias origens da causa.
Longe de mim antepor-me à cruzada cívica de um jovem idealista que trinta e três anos depois decide desafiar a lógica e a insistir na imposição do nome de seu estado. Nada mais louvável. Apenas a preocupação de que, partindo de um personagem importante e de respeitável credibilidade, os apupos respeitosos “com inspiração cívica,” sugeridos por ele, descambem para o fundamentalismo de falanges discricionárias, inoculando ódio no lugar do debate sadio e estabelecendo dogmas no lugar da tese racional.
Da mesma forma que desconhece a impraticabilidade mansa e pacífica da denominação adotada por nosso Estado, o emérito jurista parece ignorar também a discussão sobre o Estado do Pantanal, proposta defendida por respeitáveis setores de nossa sociedade, como alternativa para um nome que não confunda, e que tenha estreita relação com a nossa história, geografia e economia.
Só há duas saídas para o impasse da denominação. Ou aceitamos um novo nome, próprio e apropriado ou assumimos o Mato Grosso com naturalidade. É ilusório, infantil e presunçoso acreditar que as pessoas vão aceitar o DO SUL de Mato Grosso na marra. Por fim, “Manoel de Barros, o maior poeta vivo do mundo,” eleito pelo articulista como a imagem padrão do autêntico homem de Mato Grosso do Sul, é cuiabano e, como eu, defensor do Estado do Pantanal.
SERGIO CRUZ (sergiocruz@viamorena.com)
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Réquiem para um poeta que não morreu
Dá-lhe Délio!
O sol fechou os olhos e foi dormir seu sono, acalentar seu sonho, sonhar sua vida eterna, eternizar seu som, somar as sumidades, sumir da realidade, realegrar a platéia, plantar a colheita, coletar os dados, dedilhar o pinho, apinhar memórias, memorar o sucesso, suceder o suscetível, sustentar o sustenido, sustar o susto, assustar o assunto, assuntar os assomos, assomar às sombras, sobrar a sanha, assanhar a sede, sediar a copa, compilar o cômputo, computar as putas, putear os patos, patinar no pátio, patuá na bolsa, no bolso o maço, no moço a massa, na missa a miçanga, na micção as toxinas, na missão as doutrinas, na moção o pesar, no pesadelo o temor, no tremor o arrepio, na arrepia o bailado, no bailéu o falatório, no oratório a prece, na pressa a perfeição, na perfeitação o brilho, no embrulho o embaraço, no baraço o castigo, no perigo a razão, na ração o sustento, no tento a derrota, no vento o destino, no desatino o caminho, no carinho o deleite, no leite o apetite, no palpite o engano, no esgano a saída, na partida a chegada, na estrada o retorno, no returno as finais, nos fanais o seguro, no escuro os sentidos, no sentimento a traição, na tração o movimento, no momento o improviso, no imprevisto a suspeição, na suspensão a disciplina, na disciplina o saber, no sabor o bom gosto, no desgosto o desgaste, no desbaste o apuro, no puro a beleza, da certeza a dúvida, da dádiva a divindade, da vontade o querer, na querência o coração, na caução o fio de bigode, do pagode a poeira. O sol se pôs, mas sua música vai ficar dançando o rasqueado e o chamamé até a lua raiar.
O sol fechou os olhos e foi dormir seu sono, acalentar seu sonho, sonhar sua vida eterna, eternizar seu som, somar as sumidades, sumir da realidade, realegrar a platéia, plantar a colheita, coletar os dados, dedilhar o pinho, apinhar memórias, memorar o sucesso, suceder o suscetível, sustentar o sustenido, sustar o susto, assustar o assunto, assuntar os assomos, assomar às sombras, sobrar a sanha, assanhar a sede, sediar a copa, compilar o cômputo, computar as putas, putear os patos, patinar no pátio, patuá na bolsa, no bolso o maço, no moço a massa, na missa a miçanga, na micção as toxinas, na missão as doutrinas, na moção o pesar, no pesadelo o temor, no tremor o arrepio, na arrepia o bailado, no bailéu o falatório, no oratório a prece, na pressa a perfeição, na perfeitação o brilho, no embrulho o embaraço, no baraço o castigo, no perigo a razão, na ração o sustento, no tento a derrota, no vento o destino, no desatino o caminho, no carinho o deleite, no leite o apetite, no palpite o engano, no esgano a saída, na partida a chegada, na estrada o retorno, no returno as finais, nos fanais o seguro, no escuro os sentidos, no sentimento a traição, na tração o movimento, no momento o improviso, no imprevisto a suspeição, na suspensão a disciplina, na disciplina o saber, no sabor o bom gosto, no desgosto o desgaste, no desbaste o apuro, no puro a beleza, da certeza a dúvida, da dádiva a divindade, da vontade o querer, na querência o coração, na caução o fio de bigode, do pagode a poeira. O sol se pôs, mas sua música vai ficar dançando o rasqueado e o chamamé até a lua raiar.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Manual da cultura inútil
Quem não sabe o que é pornografia?
Quem pode estabelecer os limites da pornografia? O vereador, o prefeito, os pais, o dicionário? A fotografia da mulher de trajes mínimos no anúncio do telefone celular é pornográfica? A mulher nua na capa da revista para homens, o manequim em roupas de banho no magazine, o Adão, a Eva e a serpente peladões de Michelangelo na capela Sistina, o mendigo com a bunda de fora na esquina, o galo traçando a galinha no terreiro, o Ratinho falando palavrão na tv, o pastor endógeno, o padre pedófilo, os quadrinhos do Zéfiro, o show da Madona, o sorriso da Monalisa, a camisa do Maradona, a sanfona do Zé Correia, a baleia do twitter, a suite do presidente, a enchente do Tietê, as tietes do Faustão, a calvície do Falcão, a hipertensão do Lula, a bula do remédio, o tédio do ermitão, a onda verde da Barão, o pão que o diabo amassou, o peão que o touro amansou, a moção de louvor, a congestão nasal, o coliforme fecal, conforme está no edital, o movimento sem terra, as guerras do Barak Obama, os rompantes bolivarianos, as barbas brancas do Fidel, a fidelidade do corintiano. Pornografia é um axioma. Tanto pode ser um ato sexual público propriamente dito, com um simples dito popular. O que meus olhos veem um escândalo os seus podem não passar de um criativo nu artístico. O pornográfico é relativo. Tanto pode ser um coito a céu aberto, uma cópula a descoberto, como uma inofensiva masturbação mental. O vil metal, o cio mensal, o comensal, o desfile de carnaval, o animal do curral. Tudo é pornográfico. E eu sou apenas um sofrível pornógrafo.
Quem pode estabelecer os limites da pornografia? O vereador, o prefeito, os pais, o dicionário? A fotografia da mulher de trajes mínimos no anúncio do telefone celular é pornográfica? A mulher nua na capa da revista para homens, o manequim em roupas de banho no magazine, o Adão, a Eva e a serpente peladões de Michelangelo na capela Sistina, o mendigo com a bunda de fora na esquina, o galo traçando a galinha no terreiro, o Ratinho falando palavrão na tv, o pastor endógeno, o padre pedófilo, os quadrinhos do Zéfiro, o show da Madona, o sorriso da Monalisa, a camisa do Maradona, a sanfona do Zé Correia, a baleia do twitter, a suite do presidente, a enchente do Tietê, as tietes do Faustão, a calvície do Falcão, a hipertensão do Lula, a bula do remédio, o tédio do ermitão, a onda verde da Barão, o pão que o diabo amassou, o peão que o touro amansou, a moção de louvor, a congestão nasal, o coliforme fecal, conforme está no edital, o movimento sem terra, as guerras do Barak Obama, os rompantes bolivarianos, as barbas brancas do Fidel, a fidelidade do corintiano. Pornografia é um axioma. Tanto pode ser um ato sexual público propriamente dito, com um simples dito popular. O que meus olhos veem um escândalo os seus podem não passar de um criativo nu artístico. O pornográfico é relativo. Tanto pode ser um coito a céu aberto, uma cópula a descoberto, como uma inofensiva masturbação mental. O vil metal, o cio mensal, o comensal, o desfile de carnaval, o animal do curral. Tudo é pornográfico. E eu sou apenas um sofrível pornógrafo.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Manual de cultura inútil
Criatura e criadores
Neste início de ano, por simples curiosidade, decidi, improvisadamente, fazer um balanço das primeiras invenções da humanidade. São obras inacessíveis aos seres viventes e até hoje inigualadas por suas peculiaridades. Invenções atribuídas a Deus, nosso maior criador e ao diabo, seu primeiro desafiador. A primeira grande invenção foi o Paraíso, a mais almejada criação de Deus e a segunda, o inferno, atribuída ao diabo. Em seguida, Deus gerou a vida, o demônio ideou a morte, Deus a sorte o diabo o jogo de azar. Para produzir o mel, primeiro adoçante natural, o Pai imaginou a abelha. Para contrapor a criatividade divina, lúcifer liberou o terrível marimbondo. Como predador natural das pragas, inventadas pelo diabo, Deus criou a vespa. O diabo, numa demonstração de força que subsistiria a todas as eras, formulou a barata. Para matar a fome do mundo Deus imaginou a mandioca, para devorar a planta satã esculpiu a lagarta, que o Criador transformou em inefável borboleta. Na corrida, o Senhor fez surgir os trigais, satanás, cruel e sagaz, despejou na lavoura uma nuvem de gafanhotos. Para predar os insetos dos diabos o Pai inventou o sapo e a cobra. Medonho, o demônio retrucou com a tentadora serpente, que haveria de transformar o Éden numa verdadeira zona. Mas o Criador não desiste e concebe a saúde. Caim, com mordaz inventividade, inocula o vírus da AIDS. Deus soprou o vento para rodar o moinho e o diabo, endiabrado, bolou o redemoinho. Por fim, o diabo fez o homem e arrependeu-se, e Deus, em sua infinita bondade, o assumiu.
Neste início de ano, por simples curiosidade, decidi, improvisadamente, fazer um balanço das primeiras invenções da humanidade. São obras inacessíveis aos seres viventes e até hoje inigualadas por suas peculiaridades. Invenções atribuídas a Deus, nosso maior criador e ao diabo, seu primeiro desafiador. A primeira grande invenção foi o Paraíso, a mais almejada criação de Deus e a segunda, o inferno, atribuída ao diabo. Em seguida, Deus gerou a vida, o demônio ideou a morte, Deus a sorte o diabo o jogo de azar. Para produzir o mel, primeiro adoçante natural, o Pai imaginou a abelha. Para contrapor a criatividade divina, lúcifer liberou o terrível marimbondo. Como predador natural das pragas, inventadas pelo diabo, Deus criou a vespa. O diabo, numa demonstração de força que subsistiria a todas as eras, formulou a barata. Para matar a fome do mundo Deus imaginou a mandioca, para devorar a planta satã esculpiu a lagarta, que o Criador transformou em inefável borboleta. Na corrida, o Senhor fez surgir os trigais, satanás, cruel e sagaz, despejou na lavoura uma nuvem de gafanhotos. Para predar os insetos dos diabos o Pai inventou o sapo e a cobra. Medonho, o demônio retrucou com a tentadora serpente, que haveria de transformar o Éden numa verdadeira zona. Mas o Criador não desiste e concebe a saúde. Caim, com mordaz inventividade, inocula o vírus da AIDS. Deus soprou o vento para rodar o moinho e o diabo, endiabrado, bolou o redemoinho. Por fim, o diabo fez o homem e arrependeu-se, e Deus, em sua infinita bondade, o assumiu.
domingo, 20 de dezembro de 2009
Mutilação do Parque dos Poderes
Quando André Puccinelli era prefeito de Campo Grande teve que interromper o Complexo Bandeira, uma de suas obras mais importantes, porque esbarrou na intransigência de Universidade Federal de Mato Grosso do Sul que, com o apoio da sociedade, não permitia invasão de sua área de preservação. E a dra. Célia Maria era uma das militantes mais ativas do movimento. Resultado: a obra seria retomada somente na administração do Nelsinho que teve que encarece-la, contornando o território da UFMS. Preservar é palavra de ordem na universidade federal, mas somente às suas reservas. Pelo menos é o que ficou bem claro na nítida intenção da ativista Célia Maria, atual reitora, que pretende conservar sua flora, detonando a mais importante reserva de preservação permanente da capital: o Parque dos Poderes. Ela está querendo 20.000 metros quadrados ao lado da Assembléia Legislativa para instalar uma entidade que nada tem a ver com a administração pública, objetivo do local: uma faculdade de Direito. E sabe a quem a reitora encaminhou o seu pedido? Ao governador André Puccinelli, exatamente a pessoa que teve o seu projeto predatório defenestrado pela universidade, quando este era prefeito. Não se sabe se para confirmar sua reputação de repulsa as sedições organizadas contra atos imediatistas ou se para dizer NÃO com formal delicadeza, o governador, ao apagar das luzes da sessão legislativa de 2009, encaminhou à Assembléia Legislativa projeto de lei de cessão da área solicitada pela magnífica reitora. A mensagem do governador, como era de se esperar, caiu como uma bomba no plenário. Indignação entre os líderes de oposição e situação e entre os parlamentares de todos os partidos, ainda não refeitos do trauma de dois projetos igualmente polêmicos: o do Zoneamento Econômico, que incorpora áreas da bacia do Paraguai ao plantio de cana de açucar e o da pesca predatória que autoriza o uso de anzol de galho, joão-bobo, redes e tarrafas nos rios do Mato Grosso do Sul. O projeto ficou para o ano que vem, juntamente com o da pesca profissional que não conseguiu escapar de uma manobra obstrucionista do deputado Paulo Duarte do PT. Não se sabe quais as verdadeiras intenções do governador quanto ao pleito da universidade, mas haverá tempo suficiente às organizações ambientais planejarem uma reação determinante, através de mobilização para respaldar a disposição atual dos deputados em não permitir a aprovação do projeto de mutilação do pulmão de Campo Grande. A UFMS que construa sua faculdade de Direito e outras a que tem direito, em seu próprio espaço territorial. E deixe o Parque dos Poderes em paz.
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Manual de cultura inútil
MEUS NATAIS
Eu sempre quis escrever uma coisa no Natal que fosse original. Alguma alegoria que não fosse um jogo de palavras rebuscadas. Uma mensagem profunda, daquelas de sair à rua no dia seguinte e ser abordado por pessoas compenetradas para trocar impressões. A primeira tentativa foi um memorial de meus tempos de criança. A história comovente de um menino nordestino, pau de arara, que conheceu o Papai Noel aos dez anos de idade e assustou-se com aquele velho gordo de barbas desalinhadas e corpo suarento ao peso de um enorme saco de brinquedos baratos. Eu ganhei um pião. Joguei o pião. Mudei de idéia. A história era muito comum e não tinha nenhuma originalidade. Quem estaria interessado por um garoto pobre, quando as uneis estão cheias deles, cheios de ódio, de cores diversas, de dores constantes, de amores ausentes, descrentes de todos, de todo inclementes, de tudo ausentes, de frente pra morte, consortes do azar, asados para a fuga da maioridade. Melhor mesmo seria o lugar comum, com o jingle bell, noite silenciosa, muito espumante e um abraço comovente depois da missa do galo. Jesus fez tudo certo: nasceu na noite de Natal, na hora da missa do galo e teve uma infância bem diferente de seus contemporâneos dos morros de Jerusalém. Aprendeu carpintaria com seu pai e deixou tudo para ser pastor evangélico. Hoje, com certeza, seria twiteiro e já começaria com doze seguidores. Ainda não foi desta vez a vez da felicitação original de Natal. Vou parar que tá me dando fome.Vou comer meu panetone.
Eu sempre quis escrever uma coisa no Natal que fosse original. Alguma alegoria que não fosse um jogo de palavras rebuscadas. Uma mensagem profunda, daquelas de sair à rua no dia seguinte e ser abordado por pessoas compenetradas para trocar impressões. A primeira tentativa foi um memorial de meus tempos de criança. A história comovente de um menino nordestino, pau de arara, que conheceu o Papai Noel aos dez anos de idade e assustou-se com aquele velho gordo de barbas desalinhadas e corpo suarento ao peso de um enorme saco de brinquedos baratos. Eu ganhei um pião. Joguei o pião. Mudei de idéia. A história era muito comum e não tinha nenhuma originalidade. Quem estaria interessado por um garoto pobre, quando as uneis estão cheias deles, cheios de ódio, de cores diversas, de dores constantes, de amores ausentes, descrentes de todos, de todo inclementes, de tudo ausentes, de frente pra morte, consortes do azar, asados para a fuga da maioridade. Melhor mesmo seria o lugar comum, com o jingle bell, noite silenciosa, muito espumante e um abraço comovente depois da missa do galo. Jesus fez tudo certo: nasceu na noite de Natal, na hora da missa do galo e teve uma infância bem diferente de seus contemporâneos dos morros de Jerusalém. Aprendeu carpintaria com seu pai e deixou tudo para ser pastor evangélico. Hoje, com certeza, seria twiteiro e já começaria com doze seguidores. Ainda não foi desta vez a vez da felicitação original de Natal. Vou parar que tá me dando fome.Vou comer meu panetone.
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