sábado, 31 de julho de 2010

Manual de cultura inútil

O TUDO E O SIM

Todas as coisas já foram ditas, todas as palavras já foram escritas, as fritas fartas, as cartas lidas, as feridas lambidas, as esquecidas relembradas, a estrada caminhada, a fada madrinha, a farinha do mingau, o bilau do batuta, a biruta do vento, o momento da passagem, a viagem interrompida, a comida e o comando, o somando e a raiz, o país e os pais, a paz e a paixão, a canção entoada, a piada antiga, a liga desligada, a escada e seus degraus, os maus e seus amigos, o castigo e o cavalo, o talo entalado, o calo encravado, o cravo e a rosa, a prosa e o prazo, o prezado e o presídio, o ferido e as cicatrizes, matrizes e filiais, matriciais e digitais, normais e extravagantes, berrante e boiada, bolada e imprevista, improvidente e precatado, alentado e desiludido, designado ou penetra, penetrado ou indevassável, tolerável ou agressivo, agregado e dissoluto, dissipável e indestrutível, indestrinçável e definido, definitivo ou provisório, provisionado ou bacharel, baixaria ou diversão, diverso e semelhante, semeado ou nativo, nativismo ou estrangeirice, estultice e inteligência, negligência e precisão, proibição ou conivência, conveniência ou embaraço, a braço e a brasa, abraço abrasivo, atrativo ou desalentador, desaninhado ou confortante, conformista e irresignado, irreprochável e reprimível,réprobo ou altivo, ativo e inoperante, insolente e moderado, modelar e excludente, exclusivo ou genérico, esférico e quadrado, enquadrado ou de improviso, previsto ou desacautelado, o tutelado e o tutano, o tucano e o mamão, uma mão e a noção, notação na estação, natação no rio seco, o beco e a saída, a medida e a meditação, a razão e a risada, o nada e o não.

Invertendo os valores

A mulher amanheceu acorrentada na grade de uma repartição pública no Aero Rancho. Quem assistiu a cena na última segunda-feira, não entendeu até que chegou ao local o primeiro repórter, acionado por um curioso. Ela acorrentou-se, passou o cadeado e escondeu a chave para chamar a atenção das autoridades e do povo em geral para o seu dramático problema familiar. Seu filho, um adolescente de 17 anos é o pivô de sua crise existencial. Mãe ocupada com a educação religiosa da família, busca com a atitude extrema e humilhante exposição da própria imagem, não alertar para o perigo dos descaminhos da modernidade, num mundo fragilizado pela ação devastadora das drogas, pela banalização da instituição familiar, onde pais e filhos disputam a hegemonia da discórdia, nem pelo descontrolado aumento da prostituição, cujas garras alcançam impiedosamente até crianças, pela pedofilia que, de forma avassaladora invade os lares pobres e abastados, como uma das sete pragas do Egito e, muito menos pela ausência de Deus, cada vez mais presente e mais sentida, no coração das pessoas, que se atiram com intensidade no imediatismo de soluções facilitadas pela artimanha do ódio, da inveja e do desrespeito à religião cristã. Esta pobre mãe de família quer apenas convencer o seu filho a desistir de ser crente.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Manual da cultura inútil

(DES)ENCONTROS

A gente se encontra lá no lado de cá do cabo, no cabide de emprego, no empreguiçar do ócio, no energizar do fóssil, no fosso da façanha, na facção dos fornicadores, fornindo a forquilha, forqueando os caminhos, no escaninho dos escombros, no escambo do escambau, no escamar da traíra, na traição do tirateima, na tração das quatro rodas, na rodada da semana, no semáforo apagado, no apego à desvalia, no desvalijar do vale, na vala comum da vila, no velejar do varejo, no vareio da derrota, no derrogar das conquistas, com os quistos da amargura, no amariçar das reses, com os reis e seus reinados, arruinado ou bem sucedido, suscetível à sucessão, sossegado ou na aflição, afleimado ou inquieto, desafeto ou parceiro, parcelado ou inteiro, inteirado ou enterrado, desterrar o destemido, desenterrar o passado, pressagiar a pressão, impressionar os impressos, imprensar a imprensa, impregnar o ambiente, ambicionar o hábito, habilitar a habitação, abiscoitar a bisca, beliscar o obelisco, beliche do bolicho, cochicho no bochincho, bochecha na buchada, na ducha de água fria, ao frigir dos ovos, na ovação aos vencedores, na veneta dos poetas, no poente com a lua, na rua com os pedintes, pedioso como o chinelo, chinchado ao despudor, desprovido de valor, na valise extraviada, no extravagar da estrovenga, estremunhado com o sonâmbulo, sonante com o metal, mental com a menta, a meta e a mentira, o mentecapto e seus seguidores, o segregador e seus segredos, o sagrado e o salgado, a saga e o sagaz, o sequaz e as sequelas, a sequência e a secância, a vacância e a vaca, a faca e o foco, a fécula e o fútil, o fute e suas danações. E na hora de pagar a conta a gente se desencontra.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Nós não podemos

Perto de quem come longe de quem trabalha, dentro do que anda fora do que encalha, palha pra quem tem fogo, jogo pra quem tem bola, sola para o sapato, rato para o resto, direto para o inferno, inverno para o verão, varão para virago, mago para magodo, apodo para o sobrenome, aspone para o chefe, magarefe para o açougue, azougue para o azoratado, azorrague no malcriado, pecado para o cristão, perdão para o pescador, calor para as madrugadas, estradas para o destino, meninos para a batalha, cangalha para o poltrão, porção para o porcageiro, dinheiro para o diário, fadário para o facundo, facultoso para o fecundo, feculoso para a farinha, faringe para a falácia, falario no farfalhar, falhar no recomeçar, recoltar a recompensa, recompor o recomido, recomendar o recomposto, reconciliar o conferido, confeitar a confeição, conferir o contagífero, contaminar o contato, contrastar o contralto, contramandar a desordem, desorelhar a auréola, aurir para o aurífluo, auricular para entender, entear e entediar, entelar e atrelar, atremar os extremos, extrospecção ao extrovertido, exturbar a estuporação, o estupro e o estupor, a estupidez e o estupendo, o estipêndio e a estiagem, estribeiras desatadas, desauridos desautorados, doutorandos doutrináveis, detestáveis detentores, defensores defectíveis, defasagens deducentes, definhado defervescente, deficiência defenestrada, definição deflagrante, flagrante flagiciado, flagelo flamejado, flamejo flamular, flavescente flauteação, flutuação festejada, fatiada factícia, fac-símile fictício, fichário ficcional, ficheiro funcional, funcionário funçanata, função sem fundamento, fundação fungível, fugiente fugaz, finalmente sem palavras.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Manual de cultura inútil

Quem não tem, tem

Gato com fome come farofa de alfinete, ginete sem lança avança no grito, cabrito com sede toma cachaça, praça sem sombra seara de grama, fama em declínio humildade sobeja, peleja perdida falta de sorte, morte instantanea destino indolor, sabor adstringente remédio eficaz, capataz sem peão aposentadoria, folia sem briga união da família, rodilha sem vasilha chapéu de lavadeira, madeira seca alegria de fogueira, goteira sem chuva luz natural, carnaval sem bloco boca sem dente, gente sem casa olhos da rua, lua sem luz viola sem voz, noz com semente arara sem fome, nome limpo bolso vazio, brio ascendente brilho apagado, soldado dormindo cidade tranquila, mochila na mão estrada de chão, pão comido pão esquecido, ganido no escuro medo no claro, preclaro no claro famigerado no escuro, muro alto segredo em baixa, caixa vazio freguês sem troco, soco no ar hematoma na cara da lua, rua deserta madrugada incerta, meia coberta frio dobrado, pecado original castigo capital, de degrau em degrau se alcança o infinito, o grito é a mensagem, a massagem é o meio, o seio está no meio, o feio está no reio, o pentelho está no relho, o conselho desaconselha,a telha está na teia, a meia está na malha, a palha está na pilha, a pilha está ligada, a tomada está ativa, a furtiva está na fita, a cabrita está no cio, o rio está enchendo, o remendo está rasgado, o recado não foi dado, o dado tem só três lados, o traslado é diferente, o indigente não diverge, converge o conversador, o conversor não converte, adverte o condutor, o cantador desencanta, não espanta o espantalho, ato falho não conta, ponta afiada não fura, cura apressada não sara, cara feia não machuca. Quem não tem cão caça com a caça.

sábado, 29 de maio de 2010

Manual de cultura inútil

Falar sem pensar é atirar sem apontar, é aprontar sem rematar, arrematar sem dar o lance, lancear a própria sombra, sombrear sem escurecer, escurejar sem apetite, apetir sem ter palpite, palpitar sem ter paixão, apaisar sem ter pincel, pinar sem ter parceiro, parcelar sem ser inteiro, interagir sem ter com quem, aquentar sem acender, ascender sem ter escada, escadeirar sem ter o ritmo, ritualizar sem ir à missa, missar sem fazer regime, arregimentar sem regimento, reginar sem ter o osso, ossificar sem ficar duro, durar sem ficar curado, curar sem ficar seco, secionar sem dividir, duvidar do indiscutível, discrepar do consensual, consentir com o dispensável, dispersar o espalhado, espelhar o refletido, reflexionar o ponderável, ponderar o imprevisível, prevenir o cauteloso, cauterizar o cicatrizado, acicatar o obcecado, objetar o rejeitado, ajuntar o aglomerado, glosar o recusado, recurvar o sinuoso, insinuar o insidioso, incidir no recidivo, recingir o transitório, transfegar sem resultado, restucar o acimentado, acimar o campeão, campear boi pealado, pelear com o derrotado, derrocar o derruído, derribar o aniquilado, niquelar o ouro, ouriçar o agito, agiotar o usurário, rasurar o maculado, mascular o afeminado, afemençar o vazio, envasar o esvaziado, esvanecer o extinto, distinguir o distinto, distrair o descuidado, cuidar do tutelado, titular o titular, titubear na indecisão, decidir o resolvido, revolver o revólver, revorar o confirmado, confinar o prisioneiro, pressionar o comprimido, encompridar o discurso, discorrer o ditado, dilatar ao delator, deletar o arquivo morto, mortificar os aflitos, conflitar os radicais, erradicar o radiano, irradiar o rádio e chover no molhado.

sábado, 22 de maio de 2010

Manual de cultura inútil

Como diz o ditado...

Mais feliz que bode embarcado, mais cheio que prato emborcado, mais firme que palanque no banhado, mais alegre que fantasma no Senado, mais saneado que finanças em Brasília, mais sacaneado que o Ciro Gomes, mais zoneado que a zombaria, mais acendrado que o amor de mãe, mais apoiado que a Dilma, mais enfezado que o Álvaro Dias, mais quebrado que a Grécia, mais furado que a pesquisa, mais suado que a camisa, mais danado que a gripe, mais ousado que o grampo, mais afiado que a guampa, mais apertado que a tampa, mais abominado que o trampo, mais espaçado que o campo, mais espessado que o pirão, mais pirado que o bicho, mais bichado que o bucho, mais embuchado que o baço, mais embaçado que o vidro, mais vidrado que a paixão, mais apascentado que a rês, mais resignado que a resina, mais rezado que o bendito, mais abençoado que a hóstia, mais hostilizado que o hóspede, mais hospitalizado que a fratura, mais faturado que a conta, mais contado que o conto, mais descontado que o salário, mais ensolarado que o solário, mais assolado que a sola, mais selado que o silo, mais encilhado que os arreios, mais arriado que a bateria, mais arreliado que a azia, mais aziago que a acauã, mais acuado que o foragido, mais aforado que o processo, mais desaforado que o possesso, mais processado que a nata, mais naturado que a planta, mais plantado que a semente, mais cimentado que a fé, mais fermentado que o pão, mais frequentado que a colméia, mas esquentado que a platéia, mais desvairado que a paulicéia, mais varado que a fera, mais ferrado que o boi, mais aboiado que bosta n’água, mais aguado que a cerveja quente e tem gente que acha pouco.