sábado, 29 de maio de 2010

Manual de cultura inútil

Falar sem pensar é atirar sem apontar, é aprontar sem rematar, arrematar sem dar o lance, lancear a própria sombra, sombrear sem escurecer, escurejar sem apetite, apetir sem ter palpite, palpitar sem ter paixão, apaisar sem ter pincel, pinar sem ter parceiro, parcelar sem ser inteiro, interagir sem ter com quem, aquentar sem acender, ascender sem ter escada, escadeirar sem ter o ritmo, ritualizar sem ir à missa, missar sem fazer regime, arregimentar sem regimento, reginar sem ter o osso, ossificar sem ficar duro, durar sem ficar curado, curar sem ficar seco, secionar sem dividir, duvidar do indiscutível, discrepar do consensual, consentir com o dispensável, dispersar o espalhado, espelhar o refletido, reflexionar o ponderável, ponderar o imprevisível, prevenir o cauteloso, cauterizar o cicatrizado, acicatar o obcecado, objetar o rejeitado, ajuntar o aglomerado, glosar o recusado, recurvar o sinuoso, insinuar o insidioso, incidir no recidivo, recingir o transitório, transfegar sem resultado, restucar o acimentado, acimar o campeão, campear boi pealado, pelear com o derrotado, derrocar o derruído, derribar o aniquilado, niquelar o ouro, ouriçar o agito, agiotar o usurário, rasurar o maculado, mascular o afeminado, afemençar o vazio, envasar o esvaziado, esvanecer o extinto, distinguir o distinto, distrair o descuidado, cuidar do tutelado, titular o titular, titubear na indecisão, decidir o resolvido, revolver o revólver, revorar o confirmado, confinar o prisioneiro, pressionar o comprimido, encompridar o discurso, discorrer o ditado, dilatar ao delator, deletar o arquivo morto, mortificar os aflitos, conflitar os radicais, erradicar o radiano, irradiar o rádio e chover no molhado.

sábado, 22 de maio de 2010

Manual de cultura inútil

Como diz o ditado...

Mais feliz que bode embarcado, mais cheio que prato emborcado, mais firme que palanque no banhado, mais alegre que fantasma no Senado, mais saneado que finanças em Brasília, mais sacaneado que o Ciro Gomes, mais zoneado que a zombaria, mais acendrado que o amor de mãe, mais apoiado que a Dilma, mais enfezado que o Álvaro Dias, mais quebrado que a Grécia, mais furado que a pesquisa, mais suado que a camisa, mais danado que a gripe, mais ousado que o grampo, mais afiado que a guampa, mais apertado que a tampa, mais abominado que o trampo, mais espaçado que o campo, mais espessado que o pirão, mais pirado que o bicho, mais bichado que o bucho, mais embuchado que o baço, mais embaçado que o vidro, mais vidrado que a paixão, mais apascentado que a rês, mais resignado que a resina, mais rezado que o bendito, mais abençoado que a hóstia, mais hostilizado que o hóspede, mais hospitalizado que a fratura, mais faturado que a conta, mais contado que o conto, mais descontado que o salário, mais ensolarado que o solário, mais assolado que a sola, mais selado que o silo, mais encilhado que os arreios, mais arriado que a bateria, mais arreliado que a azia, mais aziago que a acauã, mais acuado que o foragido, mais aforado que o processo, mais desaforado que o possesso, mais processado que a nata, mais naturado que a planta, mais plantado que a semente, mais cimentado que a fé, mais fermentado que o pão, mais frequentado que a colméia, mas esquentado que a platéia, mais desvairado que a paulicéia, mais varado que a fera, mais ferrado que o boi, mais aboiado que bosta n’água, mais aguado que a cerveja quente e tem gente que acha pouco.

sábado, 24 de abril de 2010

Couro da correia

A santo que não conheço não rezo nem ofereço, a endereço desconhecido não mando carta comum, a zum-zum não dou ouvidos, a vencidos não dou a mão, a patrão não bato ponto, a tonto não dou estrada, na parada vou atrás, na paz vou à frente, da corrente sou um elo, do marmelo sou a casca, da lasca sou o espinho, do caminho sou a reta, da meta sou a metade, da verdade sou a versão, da visão sou o estrabismo, do abismo a profundez, do mês o feriado, do cerrado o guaviral, do pau a cangalha, da mortalha o morteiro, dos primeiros o do meio, dos cheios o vazio, do pavio a centelha, da parelha a correia, da ceia a sobremesa, da certeza a descrença, da desavença os rumores, dos temores o tremor, do clamor a comoção, da emoção o desdém, de quem tem o seguidor, do penhor o avalista, da lista o nome riscado, do passado o passatempo, do cata-vento o alísio, do incrível o crédulo, ao régulo regulo, ao fulo a flor, à dor a dormência, à demência a lucidez, da fluidez o fluido, do ruído a ruindade, da variedade o vário, do aviário o avestruz, da cruz o pelo-sinal, do varal a roupa limpa, das grimpas o horizonte, da fonte a água fria, do dia o entardecer, do amanhecer a aurora, da mora a morada, da manada o boi bandido, do ferido a aferição, da refeição o tempero, do desespero o despojar, do manjar o leite, do deleite o ócio, do fóssil o focinho, do domínio o dominó, do pior a piada, da virada o virado, do virago o sapato, do pato as patadas, das pitadas os apitos, do apisto o conforto, do porto o seguro, do puro o purê, do porquê o porém, do vintém o centavo, do escravo o escrevente, do valente o valete...

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Manual da cultura inútil

Quem muito fala dá bom dia a cavalo, no embalo quebra o galho, no atalho encurta o trecho, no queixo segura a onda, na sonda se aprofunda, na rotunda se protege, no herege se espelha, na parelha se reforça, na roça perde a semente, na corrente não se cansa, na esperança não se rende, do alpendre vê o infinito, no grito nem sempre ganha, na manha às vezes empata, da gravata nunca escapa, no mapa se localiza, na camisa se identifica, na pelica se acomoda, na moda dá o tom, no som ensina a dançar, no patuá leva a sina, do sino leva o dobrar, no bar afoga as mágoas, nas águas afaga o fogo, no jogo dobra a parada, na estrada senta à beira do caminho, ao vizinho conta vantagem, na miragem mede a distância, na elegância não convence, se vence não leva, na ceva não engorda, na corda não laça, na raça não segura, na fissura não passa, na praça não passeia, na ceia não sacia, na súcia se revela, na novela imita a vida, na corrida sempre volta, dá voltas e segue em frente, decadente perde o peso, surpreso não se admira, na mira não se retira, na pira não arde, no alarde não se toca, na toca tocaia o sono, do trono impera o reino, do treino tira o ágil, do ágio aufere o lucro, ao xucro doma, à soma diminui, reflui o reflexo, o complexo reduz, a cruz carrega, prega a palavra, lavra o sumário, ao primário pronuncia, ao prenúncio o desvio, ao pavio a chama, à trama o fuso, ao confuso o remo, do extremo a prudência, da cadência a harmonia, da sinfonia a sanfona, do cafona o cafofo, do mofo o abolerecimento, do aborrecimento a satisfação, na cloração a pureza, da incerteza o seguro, do puro o manchado, o fado e a morte. Assim é a vida.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Manual de cultura inútil

O mosquito da dengue não tem preconceito e se acha no direito de atacar até senador. O aedes egipt tem espírito republicano. Não pica por engano, não age por baixo dos panos, não procria em água suja e resiste ao fumacê. Eu prefiro ser picado pela mosca azul, mordido pelo pit bull a ser vítima de uma dengue por menos hemorrágica que seja, por mais fraca que possa vir, por mais falsa que seja ao sorrir, por mais devassa que esteja ao ficar, por menor que veja ao redor, por pior que aja ao melhor, ainda prefiro a paz das noites mal dormidas, a lamber as feridas não cicatrizadas, a errar as entradas permitidas, a caminhar as estradas sem atalhos, a carregar as espigas sem atilhos, a juntar todos os entulhos, livrar-me de todos os bagulhos, limpar os velhos bugalhos, mijar no assoalho, fazer cara de paspalho, espalhar os rumores mais atrozes, atroar os ruídos mais agudos, entoar os cantos mais antigos, enjoar os gostos mais contrafeitos, esboçar o gestos menos convencionais, convencer o mais cético dos mortais, acessar todos os portais, incensar os mais imbecis, inocentar os mais culpados, inculpar os inocentes, inculcar as preferências, proferir o resultado, resumir o arrazoado, rasar o razoável, presumir o ponderável, prevenir o imprevisto, improvisar o discurso, dispensar o recurso, dispersar a massa, massacrar o meio, casar em maio, rechear a meia, mediar o conflito, configurar a página, pajear a cria, criar um clima, climatizar o tempo, contemporizar a contento, contestar o descontente, descontar o deságio, desajeitar a rotina, desajustar o pacto, depenar o pato, desempenar a ponta, desempenhar o cargo, despachar a carga, jogar uma praga e pagar pra ver.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Que estado é esse, excelência?

Publicado na edição de hoje (19-02-2010) Correio do Estado:

Que estado é esse, excelência?

Sergio Cruz

O advogado Fábio Trad, em trabalho publicado no Correio do Estado (16-02-2010) volta a uma antiga discussão, envolvendo o nome do Estado. No arrazoado o ex-presidente da OAB, inicia uma cruzada que, pela inutilidade de sua aplicação, já virou folclore: a exigência de que sejam publicamente execrados todos aqueles que deixarem de acrescentar o DO SUL em nosso Mato Grosso. O exaltado jovem advogado começa por tentar diferençar Mato Grosso do Sul do Mato Grosso e a confessar-se humilhado quando alguém é flagrado economizando o nosso DO SUL, reconhecendo, por outro lado, a grande dificuldade que as pessoas encontram em pronunciar o Mato Grosso do Sul do começo ao fim.
Depois de uma sequência atabalhoada e veemente de considerandos, Fábio Trad, encerra seu longo artigo com o um brado de guerra: “...aquele que se referir ao nosso estado com o nome de Mato Grosso deverá ser imediatamente corrigido, sem receio de constrangimento, se possível, apupado respeitosamente com inspiração cívica, para, ao final, todos, de forma uníssona, a voz firme e cheia de orgulho, proclamando:MATO GROSSO DO SUL!”
O artigo do advogado Fábio Trad está pelo menos 30 anos atrasado. Ou seja, o trabalho tem praticamente a idade do autor. Como um dos fundadores de Mato Grosso do Sul, na condição de deputado estadual constituinte, confesso que nunca fui fascinado pelo nome que tivemos que aceitar em 1977. A proposta de Estado de Campo Grande me pareceu à época muito mais adequada, sobretudo, do ponto de vista topográfico. Outra coisa, o Mato Grosso do Sul, além de manter o vínculo com o estado remanescente, nos remetia à submissão regional de Sul de Mato Grosso da qual tentávamos nos livrar com a emancipação. Entendia que o processo divisionista deveria ser radical, inclusive com uma denominação própria.
Por fim, o Mato Grosso do Sul, além de difícil assimilação, em nenhum momento havia sido reivindicado pelo movimento divisionista. Historicamente não tinha nenhuma referência a não ser a de parte meridional de Mato Grosso. Vespasiano defendeu o Estado de Maracaju, Getúlio, quando em 1943 promoveu a primeira separação oficial, denominou de território federal de Ponta Porã. O Mato Grosso do Sul viria surgir apenas às vésperas da divisão, para desempatar uma disputa entre os que aceitavam ou não o Estado de Campo Grande.
Não houve uma discussão sobre o nome do novo Estado. Ele nos foi imposto pela pressa de dividir e por uma minoria saudosista que havia nascido matogrossense e queria morrer matogrossense. Isto não impediu que se assumisse a nova denominação. Durante os primeiros vinte anos integramos o coral dos intransigentes. Achávamos que corrigindo a quem nos confundia com o Mato Grosso, iríamos inculcar o Mato Grosso do Sul. Corrigimos, com impertinência, nos congressos, nas conferências, nos shows, nas reuniões políticas, nas competições esportivas, nas lojas, no centro nas periferias, onde houvesse alguém trocando o Mato Grosso do Sul pelo Mato Grosso. Tudo em vão. Quanto mais corrigíamos, mais as pessoas continuavam, sem maldade, esquecendo o nosso DO SUL, como ocorre até hoje, acendendo ainda que tarde a indignada chama patriótica do jovem dirigente classista.
Duas décadas depois, descobri que estava me expondo ao ridículo na tentativa de explicar que a gente era Mato Grosso ao mesmo tempo que não era Mato Grosso. Refletindo passei a buscar as razões pelas quais as pessoas não conseguiam assimilar a denominação adotada. Há uma tendência natural à redução de palavras. Nome de gente, cidade, estado ou país com mais de duas palavras passa por este processo de simplificação. No legislativo brasileiro, por exemplo, há uma exigência regimental do nome parlamentar que não pode ter mais que duas palavras. O gaúcho e o potiguar não se apoquentam quando seu estado é identificado apenas por Rio Grande. Ao contrário, orgulham-se disso. O próprio Mato Grosso do Sul, lugar comum, resume-se a um econômico MS. Simplificando, Mato Grosso do Sul é um nome indiscutivelmente bonito, sonoramente agradável, patrioticamente defensável e extensamente inassimilável.
O autor do artigo exagera quando considera “agressão, ofensa, humilhação, deboche,” o ato de, mesmo voluntariamente, alguém dirigir-se ao nosso Mato Grosso, sem o respectivo DO SUL. Não releva o fato de Mato Grosso ser a base de nossa denominação. DO SUL são apenas termos de diferenciação, logo, abominar o radical para enaltecer a flexão é, no mínimo, omitir as próprias origens da causa.
Longe de mim antepor-me à cruzada cívica de um jovem idealista que trinta e três anos depois decide desafiar a lógica e a insistir na imposição do nome de seu estado. Nada mais louvável. Apenas a preocupação de que, partindo de um personagem importante e de respeitável credibilidade, os apupos respeitosos “com inspiração cívica,” sugeridos por ele, descambem para o fundamentalismo de falanges discricionárias, inoculando ódio no lugar do debate sadio e estabelecendo dogmas no lugar da tese racional.
Da mesma forma que desconhece a impraticabilidade mansa e pacífica da denominação adotada por nosso Estado, o emérito jurista parece ignorar também a discussão sobre o Estado do Pantanal, proposta defendida por respeitáveis setores de nossa sociedade, como alternativa para um nome que não confunda, e que tenha estreita relação com a nossa história, geografia e economia.
Só há duas saídas para o impasse da denominação. Ou aceitamos um novo nome, próprio e apropriado ou assumimos o Mato Grosso com naturalidade. É ilusório, infantil e presunçoso acreditar que as pessoas vão aceitar o DO SUL de Mato Grosso na marra. Por fim, “Manoel de Barros, o maior poeta vivo do mundo,” eleito pelo articulista como a imagem padrão do autêntico homem de Mato Grosso do Sul, é cuiabano e, como eu, defensor do Estado do Pantanal.

SERGIO CRUZ (sergiocruz@viamorena.com)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Réquiem para um poeta que não morreu

Dá-lhe Délio!

O sol fechou os olhos e foi dormir seu sono, acalentar seu sonho, sonhar sua vida eterna, eternizar seu som, somar as sumidades, sumir da realidade, realegrar a platéia, plantar a colheita, coletar os dados, dedilhar o pinho, apinhar memórias, memorar o sucesso, suceder o suscetível, sustentar o sustenido, sustar o susto, assustar o assunto, assuntar os assomos, assomar às sombras, sobrar a sanha, assanhar a sede, sediar a copa, compilar o cômputo, computar as putas, putear os patos, patinar no pátio, patuá na bolsa, no bolso o maço, no moço a massa, na missa a miçanga, na micção as toxinas, na missão as doutrinas, na moção o pesar, no pesadelo o temor, no tremor o arrepio, na arrepia o bailado, no bailéu o falatório, no oratório a prece, na pressa a perfeição, na perfeitação o brilho, no embrulho o embaraço, no baraço o castigo, no perigo a razão, na ração o sustento, no tento a derrota, no vento o destino, no desatino o caminho, no carinho o deleite, no leite o apetite, no palpite o engano, no esgano a saída, na partida a chegada, na estrada o retorno, no returno as finais, nos fanais o seguro, no escuro os sentidos, no sentimento a traição, na tração o movimento, no momento o improviso, no imprevisto a suspeição, na suspensão a disciplina, na disciplina o saber, no sabor o bom gosto, no desgosto o desgaste, no desbaste o apuro, no puro a beleza, da certeza a dúvida, da dádiva a divindade, da vontade o querer, na querência o coração, na caução o fio de bigode, do pagode a poeira. O sol se pôs, mas sua música vai ficar dançando o rasqueado e o chamamé até a lua raiar.